sábado, 2 de fevereiro de 2013

Pilhagem

-Hey. Mais uma?
-Oh sim, dupla por favor.
      O garçom vira as costas pra mim e ruma para o balcão do bar.
      Eu estou aqui  num bar cafona no subúrbio de Porto alegre, aqui na calçada do lado de fora do bar há várias mesas cheias de pessoas,  provavelmente muitas delas tão fracassadas na vida quanto eu.
      Eu estava prestando atenção no casal que acabara de chegar no restaurante em frente ao bar, ele sorridente abraçando na cintura da sua bela namorada. Eu vi quando ele gentilmente arredou a cadeira para ela se sentar, como um cavalheiro. Deu um beijo longo nos lábios dela, e também, deve ter feito alguma piadinha pois ela caiu na gargalhada no momento seguinte.
      Já havia passado algum tempo quando o garçom voltou com a minha dose dupla. Eu o paguei e lhe dei o troco de gorjeta, ele agradeceu e se afastou.
      Eu voltei a observar aquele casal, pensando também na minha vida. Em como ela sempre foi tão estranha, talvez injusta, não injusta não. Mas não estou aqui para reclamar, não. Também tive momentos felizes, também tive amigos, família etc. Mas e hoje? Hoje...
     A vida tem a sua própria rotação, a ordem natural das coisas. Na verdade ela é uma grande roda gigante, um dia você está em cima e algum outro dia você está por baixo. Mas se é realmente assim, parece que quando a minha gaiola ou sei lá o que chamam aquela coisa feia e enferrujada que a gente fica sentado ficou para baixo, galera, eu acho que a grande roda gigante estragou. E, eu vejo as pessoas lá em cima contentes e se divertindo.
     Mas que saco. O casal terminou o seu jantar e estão saindo, eu devo ter ficado muito tempo viajando, eles se foram e eu perdi minha distração. Por um momento mesmo sem conhece-los, fiquei feliz por eles.
     Nesse momento pego um cigarro do maço, e olho pra ele como se nunca o tivesse visto,observo por um longo tempo e recoloco ele de volta no maço. Penso que talvez eu tenha de mudar, mas isso quebraria a minha filosofia de ser você mesmo, resumindo, pego de volta o mesmo cigarro e ponho na boca acendo e dou uma tragada forte, tomo o resto da minha bebida que agora já está morna, e dou as costas para o bar, para o casal, para os meus velhos amigos companheiros do bar que eu nunca conversei e, para muitas outras coisas.
                                                                       - Zeti

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